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Miss Nothing

"I am different ... Equal to the rest of the world."

18
Abr17

Vícios.

Domingo estive com os meus primos mais novos depois de uma eternidade sem lhes pôr a vista em cima. As últimas vezes que os vi não foi pêra doce. Estão incontroláveis e prós em desafiar autoridade. Ainda que tenha muita paciência para crianças, não consigo lidar com miúdos mal educados e que teimam em ignorar a palavra dos mais velhos. Nas últimas vezes que estive com eles não lhes dispensei muita atenção exactamente por causa disso, contudo a situação não esteve muito grave na Páscoa.

Dos dois filhos da minha prima, o mais velho já se acha crescido. Fala-me como se fosse adolescente, como se fosse imperativo saltar a infância porque só a palavra implica algo mau. Está um verdadeiro viciado em telemóvel. Tem oito anos e está completamente viciado nas tecnologias. Está sempre agarrado à porcaria de um smartphone, a jogar, a ver vídeos no youtube e nesta última vez já me falou de facebook, ficando super chocado porque eu e as minhas irmãs não temos a aplicação no telemóvel e ele, mais novo, estava sempre lá.

Por mais do que uma vez vi a minha prima a falar com ele e a querer dar uma de mãe super responsável, tirando-lhe o telemóvel das mãos e a afirmar, com desgosto, como ele estava viciado e ela gostava que ele fizesse coisas mais produtivas em vez de estar sempre colado ao aparelho. Eu fiquei calada, mas, hey: de quem é a culpa? Se há coisa que mexe com os meus nervos é esse tipo de afirmações da parte dos pais quando são eles os culpados: O meu filho é tão guloso! Quem me dera que não comece tantos doces! E, no entanto, está ao mesmo tempo a estender-lhe um chupa. Com as tecnologias é a mesma coisa. Queixam-se que os filhos estão viciados nos telemóveis, mas impingem-nos às crianças, desde pequenas, para as calar. O resultado? Crianças que sabem mexer em computadores, telemóveis, tablets, antes mesmo de saberem andar e falar. Toda a mudança precisa de um ponto de partida e neste tipo de casos acredito que deve partir dos próprios pais. No que toca ao assunto que comecei por mencionar: só vejo o caso dos meus primos a piorar.

A minha prima está sempre com o telemóvel na mão. Sempre. Sempre distraída porque todo o seu cérebro está consumido pelo iphone e o mundo virtual. Domingo a sua dependência irritou-me quando a filha andava a vaguear pela sala com um nenuco e umas figuras que horas antes tinham sido descobertas de um bloco de cimento - um kit de arqueologia que a minha mãe tinha oferecido ao seu irmão como amêndoa da Páscoa -. Eu estava a ver televisão mas apercebi-me da pequena a ir ter com a mãe e a pedir atenção. Tudo o que ela queria era brincar e a minha prima o que fez foi bufar e dizer-lhe que não tinha paciência e estava ocupada. Não tinha paciência para brincar com a filha, entretê-la com um bocado de atenção.

A sua afirmação revoltou-me e fez-me lembrar o Natal quando o seu mais velho foi a minha casa, viu a minha amostra de árvore de Natal, ficou muito espantado, pediu à minha prima para fazerem a deles e ela lhe respondeu que não tinha tempo para isso. A sua mais nova é um diabinho: é um facto. Lidar com ela não é fácil, mas sempre a consegui abordar da maneira certa. Por muito mal que ela se costume portar, decidi, naquele momento, que se a pequena viesse ter comigo, eu iria proporcionar-lhe o que ela queria porque o que ela pedia não era nada de mais. A miúda acabou mesmo por ir para ao pé de mim e eu fiz de médica, de mãe de um nenuco, explorei ruínas sobre a mesa do lanche, falei sobre gigantes e sobre a magia de encontrar coisas anteriormente perdidas. A pequena estava feliz. Estava colada ao meu colo, recusava-se a sair de lá e eu fiquei feliz por a ver tão entretida e servida com aquilo que precisava: atenção. A minha prima? Ficou o tempo todo ao meu lado. O que era importante e a mantinha ocupada para não poder dar atenção à filha? O facebook. A porcaria do facebook. É extremamente irónico ela dizer que o seu filho é um viciado quando ela é infinitamente pior que ele e este tem, obviamente, a quem sair.

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