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Miss Nothing

"I am different ... Equal to the rest of the world."

24
Out16

25 anos.

Há 25 anos atrás os meus pais tinham 25.

A história deles não começou aí, mas surgiu um novo capítulo com tanta garra que de uma história surgiu outra. Em 24 de Outubro de 91, há 25 anos atrás, abriram um livro e começaram a contar uma história da sua própria história. Isto fez-me pensar no dia 24 de Outubro de há 25 anos atrás e indagar. Há 25 anos atrás...o que andariam as pessoas a fazer há 25 anos atrás? Para dar mais credibilidade há história que me estava a contar, peguei em personagens incorpóreos, criados no momento, e dei-lhes as identidades que quis, com as características que bem entendi: uns têm bigode, outros cabelo branco; há quem use óculos ao estilo de Harry Potter, quem desafie o tempo em moda, homens e mulheres: e todos usam chapéu. Todos existiam há 25 anos atrás. Então, o que cada um fazia? Ela pousava uma tarte de maçã, acabada de fazer, no parapeito de uma janela. Ele dava baforadas com o seu chimbaco, ouvindo música erudita enquanto a mão fazia deslizar uma caneta que, por sua vez, tricotava história. Há 25 anos atrás, também, a Branca de Neve já tinha dado uma trinca na maçã envenenada. Há 25 anos, a Cinderella já usufruíra do seu Bibbidi-bobbidi-boo, a Alice já tinha caído em aventuras sem perder a cabeça - pintando, pelo caminho, rosas cor de carmim -, o Peter Pan já existia sem nunca crescer e o Hook, por sua vez, já vivia sem mão (coitado). A Duquesa já tinha conhecido o seu O'Malley, a Ariel já tinha as suas pernas, a Bella começou a existir para não só para desafogar o coração do monstro como de quem estava para vir. Há 25 anos atrás, o mundo já girava. Histórias eram iniciadas todos os dias porque a vida tem um dom na ponta da caneta. O mundo era mundo há 25 anos atrás e continua a ser mundo 25 anos depois. Muita coisa permaneceu igual, mas tantas outras mudaram. Eu, por exemplo, há 25 anos atrás não era eu. Eu não era bem eu. Eu não podia ser bem eu. Mas passei a ser. Há 25 anos...nasci. Há 25 anos eu calcei, pela primeira vez, o sapatinho. Há 25 anos, o sapato de cristal, a 24 de Outubro, serviu-me; e porque o meu pé não voltou a crescer: nunca deixou de servir.

 

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07
Jan16

Cansaço.

Recentemente descobri que gosto de Álvaro de Campos. Passei anos a acreditar que Fernando Pessoa era um poeta fantástico e bem apreciado mas que não tinha nada para se relacionar comigo. Durante o secundário estudei-o, como todos, e não senti nada. Nicles. Levei com muito poema em cima, apontava tudo o que havia para apontar, explorei as suas diferentes faces psicológicas e nada. Fiquei feliz quando terminei o secundário e o deixei para trás porque não teria de insistir numa relação que obviamente não tinha construído laços para ter um futuro. Foi preciso crescer (ahah) mais um pedacinho para achar que isso mudou. Acredito que pela muita influência da filosofia.

Há uns tempos fiquei arrebatada por um poema assinado por A. Campos. Cansaço. A minha irmã lera-o para mim, dizendo achar que era a minha cara. Não fui na sua conversa até ela chegar ao fim, onde o poema se tornou perfeito, trazendo à baila conceitos e ideias que me interessam e de que costumo falar. Fiquei tão animada, tão extasiada que lhe pedi o livro para ver o poema e reli aquele pedaço do poema várias vezes, chegando, até, a tirar uma foto e a partilhar no instagram (não fosse eu fã daquilo).

Não sou uma das personalidades de FP e muito menos o próprio Pessoa, mas, pegando no presente, neste exacto instante do presente, na própria realidade, na verdade, e sem jeito para poemas, acredito que esta poderia ser a minha versão do seu Cansaço :

- Sabes que estás a dar as últimas quando te esforças para acabar de ler um livro. E independentemente do (pouco) número de páginas, fora as vezes que te vês a reler para tentar reter alguma coisa, o texto começa a aparecer com destaques aos teus olhos; frases mais a negrito que outras, palavras com mais tinta que outras, letras que parecem estar sobre um fundo levemente cinza, como se tudo fosse um jogo, como se a composição dessas mesmas letras revelasse uma mensagem secreta. Para mim, acredito que seria qualquer coisa do tipo: Vai dormir, repetido mil vezes, elevado ao infinito. -

27
Nov14

G-A-G-A.

O seu rosto, de expressões duras, não transparecia sentimentos, falsamente indiferente aos gritos do público. Usava uma peruca de corte médio, tão clara como os flashes das câmeras que registavam o momento. As pálpebras, quase ocultas pela franja artificial, escondiam os seus olhos esverdeados, com pinceladas marrom, e os lábios brilhantes não passavam de uma linha fina que se deformou ao dar vida a um sorriso.

O corpo, longe de uma magreza excessiva, aparentemente mais alto graças às botas brancas bicudas, brilhava pelo fato de lantejoulas que cintilavam com a explosão de cores oferecidas pelos projectores de luz. A sua severidade transmitia glória. A cabeça erguida revelava orgulho pelas próprias conquistas e, além disso, mostrava sentir-se amada e queria mostrar que era recíproco.

 

Cadeiras que me permitem fazer textos deste género como trabalhos, mesmo que os mesmos não sejam muito bons. Gosto. Muito.

24
Out14

Happy Birthday.

Eram 23.55 quando ela começou a sentir formigueiro nas mãos. O dia 24 de Outubro estava à distância de cinco minutos e além dela - e do progenitor que ainda se aguentava - estava tudo a dormir. Após uma ida à sala de estar ela deteve-se em frente ao espelho do quarto a fazer mais do que olhar para o seu reflexo. Ela via-se. Ela conseguia ver-se mesmo. E nos poucos segundos em que se deteve no seu rosto ela pensou no antes e no depois, imaginando-se crescida. Ena...mais um nos vinte. A rapariga sorriu para si, ajeitando o cabelo que fora apanhado com alguns ganchos e molas. A aparência ainda que fosse de uma menina crescida contrastava com o interior onde uma vozinha a relembrava do autocolante que desejava pôr na capa do telemóvel.

Ao sentar-se à secretária, a irmã mais nova acordou. Ela rebolou nos lençóis até ficar mais desperta e perceber que o dia 24 de Outubro estava a três minutos de distância. Houve umas piadas pelo meio porque era assim que o dia 24 era sempre recebido: com boa disposição e risadas. Contou-se dois minutos. Contou-se um minuto. Contou-se 45 segundos. Depois, quando o relógio apontou os cinco segundos finais do dia 23, um bip do telemóvel deu sinal de mensagem e à meia noite soou um "Parabéns!" atrás dela. Antes mesmo de responder, ela fechou os olhos e sorriu.

Cum caraças, já são 23 anos.

13
Mai14

Livros.

Os olhos deslizam por filas de letras, infindáveis até a chegada de um ponto. De uma frase seguia outra e o capítulo foi lido num ápice; a fome de algo ainda a borbulhar no seu interior, a sua mente fértil sedenta por imagens. O livro digital não era menos amado que o palpável; o problema estava no ponteiro digital e na sua indicação do pouco que faltava para terminar. Foi o relógio que ditou a sentença e, quando menos esperava, no auge das suas emoções, a última fala foi lida e mais um livro deixado para trás. O décimo nono. Mas a carência ainda estava lá; ainda não chegava. A morena, a meio de um suspiro, virou o rosto para o lado e encalhou com o livro que andava a ler, aos poucos, desde Abril. O marcador indicava ainda história por ler; três capítulos e um epílogo. Seria suficiente para sossegar a fome. Ela agarrou no peso reconfortante e desfolhou a matéria, sentindo o cheiro característico do papel tocado pelo tempo. Uma palavra seguiu outra. Uma frase seguiu outra. Um parágrafo seguiu outro. Uma página seguiu outra. Um capítulo seguiu outro até os dedos tocarem nas últimas páginas, já brancas, ausentes de magia. Foi mais um que findou. O vigésimo. Mais um que levou um pedacinho dela. Não havia esplendor além de um bom conto. Havia magia deixada para trás e era isso que deixava saudade, apesar dos muitos para ler, além das novas aquisições. O facto de ser um livro. Simplesmente um livro. Porque um livro é sempre um livro; mais do que palavras compostas em frases, compostas em grupos de parágrafos e falas que fazem capítulos. É um mundo, uma oferta de fascínio.

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